quarta-feira, 25 de novembro de 2009

DA INTOLERÂNCIA HOMOSSEXUAL por Dom Robinson Cavalcanti

Bispo Anglicano, Cientista Político e Professor Aposentado da UFPE - Universidade Federal de Pernambuco

Igreja Anglicana do Cone Sul da América - Olinda (PE), 10 de setembro de 2009

Já o conhecia por mais de quinze anos. Ele possuía um título de Bacharel em Teologia e outro de Licenciatura em Ensino Religioso, cursado em seminários evangélicos da cidade. Fora expulso – juntamente com um grupo de jovens – de uma igreja presbiteriana, por acreditarem na contemporaneidade dos dons espirituais, inclusive o falar em línguas e a profecia. Por intermédio de uma de nossas reverendas, ele, e alguns do seu grupo, vieram para uma Paróquia Anglicana. Ficamos amigos. Trabalhamos juntos na igreja, e militamos juntos em partido e movimentos sociais. Tornou-se um irmão chegado.

Um dia me revelou que havia sido iniciado na prática do homoerotismo em uma casa de praia da região metropolitana do Recife, tendo como mestre um respeitável presbítero. Mas, suas convicções evangélicas e calvinistas apontavam para a convicção de pecado, e para a opção pelo celibato e pela castidade, apesar de tentações eventuais. Assim ficou por muitos anos, e era respeitado e amado pela comunidade de fé. Foi Ordenado para o ministério diaconal.

Começou a entrar em contato com o núcleo GLSTB de outra Diocese Anglicana, passando a balançar em suas convicções antes aparentemente sólidas. Um dia me disse: “Estou revisando meus paradigmas”.

Ele sabia que a Diocese do Recife havia apoiado a Resolução 1.10 sobre Sexualidade Humana da Conferência de Lambeth, 1998, e que os nossos Cânones Diocesanos não permitem a Ordenação de homossexuais praticantes, dispositivo votado pela mais ampla maioria dos clérigos e leigos, reunidos em Concílio. Veio o período de repressão da Província contra a nossa Diocese. Um dia ele entrou em meu gabinete no Centro Diocesano, de semblante fechado, e disse: “Vim abjurar dos Cânones!”, o que significaria a perda do status ministerial. Tratei-o com sensibilidade pastoral, e optei por colocá-lo provisoriamente em disponibilidade, até que se transferiu canonicamente, de forma tranquila, para outra Diocese.

Na ocasião, lhe disse: “Temos sido amigos e irmãos por 16 anos. Tenho por você o maior apreço. Agora estamos em campos separados, do ponto de vista eclesiástico, teológico e ético, mas isso não impede que nos respeitemos e mantenhamos um relacionamento fraternal”. Para minha surpresa, ele se pôs de pé, rígido, e replicou: “Não! Pois decidi, de agora em diante, somente manter qualquer relacionamento, ou até cumprimentar e responder cumprimento, unicamente com aquelas pessoas que façam diante de mim uma solene profissão de fé: “Creio que o homossexualismo é normal”. Ele deu a mesma resposta para os seus 32 colegas de ministério e para vários leigos. E cumpriu a palavra. Rompeu o relacionamento com todos, e se recusa a dar ou responder a um “bom dia”.

Durante décadas, como estudante, profissional, e militante de movimentos sociais, convivi com pessoas das mais diferentes correntes de pensamento. Expressei discordâncias. Tive embates. Mas, ao me aposentar, apenas uma pessoa (um filósofo marxista desviado da Assembléia de Deus) se recusava a falar comigo. Sempre soube manter as divergências em um nível alto e não pessoal. Infelizmente, descobri que a coisa era pior na Igreja. Quando publiquei meus livros Uma Bênção Chamada Sexo (1976) e Libertação e Sexualidade (1989), cristãos conservadores se afastaram de mim. Conheci o “gelo”, e a perda de convites. O mesmo se deu quando publiquei Cristianismo e Política (1987), ou quando participei da campanha presidencial de Lula em 1989 e 1994. Mas, esses irmãos eram fundamentalistas mesmo, e essa reação fazia parte da sua maneira de ser.

Agora, com o tema do homossexualismo, o fenômeno se dá do lado esquerdo, com os ‘abertos’, ‘liberais’, ou progressistas, e em muito maior extensão. Nunca em toda a minha vida, perdi tantos relacionamentos. Passei a ser visto como um anacronismo vivo, um superado reacionário, e, rótulo dos rótulos, um ‘homofóbico’. Muitos não falam comigo até hoje; outros me cumprimentam formalmente, mas me afastaram do seu convívio, e jamais me convidariam para pregar em suas igrejas, para que eu não desse mau exemplo. Até acusado de ‘ter mudado’ eu fui. Mas, mudado como, se continuo crendo nas mesmas coisas. Mudou o mundo, e mudaram esses tidos como evangélicos, débeis em suas convicções, intimidados, ou cooptados pelo espírito do século.

Convivi com anarquistas, existencialistas, maoístas, trotskistas, fascistas, rotarianos, congregados marianos, teefepistas, e por aí vai. E tenho boa camaradagem com todos até hoje. Mas com os cristãos ‘tolerantes’ vim a conhecer o que há de mais rígido em matéria de extremismo e de intolerância. Vim a conhecer o ódio, pois devo ser destruído, porque ao defender as posições clássicas do Cristianismo, estaria obstaculando o avanço da nova civilização da diversidade tolerante e relativista.

Um dos poucos clérigos que deixou a nossa Diocese, e que veio se despedir de mim, estava visivelmente transtornado, irreconhecível. Parecia ter passado por um processo de lavagem cerebral. Olhava para mim com um misto de desprezo e de ódio. Muito ódio. Confesso que, mesmo mantendo a calma e a afetividade, sentindo pena daquela alma em sofrimento, em um momento fui contundente: “Meu irmão. Eu venho da geração do conflito entre muitas utopias: os anos 1960. Lamento pela sua geração. Pobre geração! Pois a única utopia que lhe restou foi a defesa da viadagem!”.

Esse momento de raiva tinha suas raízes na certeza de que sempre defendi a dignidade das pessoas e os seus direitos civis. Convivi com a liderança gay da Universidade Federal de Pernambuco, onde, por cinco anos, participei do seu Núcleo Interdisciplinar de Estudo da Sexualidade (NIES), debati com Luís Mott no Congresso Nacional de Assistentes Sociais da Área de Saúde, na Unicamp, contra a vontade dos conservadores participei da semana cultural que antecedeu o V Congresso Brasileiro de Homossexuais, outra vez debatendo com Luiz Mott. Não cultivo ódio para ser tido como fóbico. Com cinco mil anos das religiões monoteístas de revelação, com dois mil anos de consenso dos fiéis na Igreja de Jesus Cristo, tenho a convicção de um conceito, do qual deriva preceitos, e não preconceitos.

Por respeitar, exijo ser respeitado, como pessoa, em minha liberdade religiosa, em minhas convicções. Nada me forçará a capitular diante do espírito do século, de decisões político-ideológicas de entidades científicas, do rolo compressor da mídia e das artes, das decisões repressivas dos aparelhos do Estado, do patrulhamento de entidades da sociedade civil, ou da predestinação erótica (“se nasce gay, e não se pode mudar”). Sou apenas um cristão, fiel ao que me ensinaram os antepassados na fé, ao que leio nas Sagradas Escrituras: todos são pecadores perdidos; todos carecem de se converter, se arrependendo e mudando de vida; todos podem passar por um processo de santificação pelo poder do Espírito Santo. Quanto ao ser discriminado, marginalizado ou odiado por assim crer (heterofobia), faz parte dessa crença, há vinte séculos.



Fonte:
http://www.dar.org.br/episcopal/383-da-intolerancia-homossexual.html
ou
http://www.urrodoleao.com.br/estudos-0111.htm

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